
A tempestade se insinua ao longe. A praia e o mar já se encontram com o tom acinzentado característico. Uma garoa fina começa a cair e vejo que minhas pegadas são apagadas pelas ondas que insistentemente cuidam para que tudo seja renovado. O sinal de minha presença é apagado, mas este momento ainda permanece vivo em minha memória. Na areia escrevo algumas palavras que serão conhecidas apenas por mim, pois foram escritas para serem apagadas. Lembranças de um amor perdido são levadas pelas ondas.
Os raios estão mais próximos. Falta certa distância para chegar a um abrigo. A força da tempestade torna-se algo desafiador. O vento gelado quase me arrasta da montanha que estou subindo. A trilha de pedra torna-se escorregadia e a chuva me atinge como milhares de agulhas entrando em minha pele. Se estou com medo? Na realidade, estou rindo, muito. Doses generosas de adrenalina me fazem sentir muito bem. Sozinho no meio de uma tempestade, onde ninguém ou nada poderia me salvar. Todos foram se esconder, mas era ali que eu queria estar. Nunca antes senti tanta paz. Eu percebi que era apenas um pequeno grão de areia, como todos aqueles na praia em que eu estava caminhando. E, em toda minha insignificância, eu me sentia mais vivo que nunca.
“No entanto, ela se move”, Galileu teria dito em um ato de coragem ao perseguir a verdade. Para o poder da época, esta frase simples marcava o começo do fim de uma era de terror. Galileu escapou da Inquisição ao recusar evidências, mas morreu depois de 9 anos de prisão domiciliar em paz, pois ele sabia que não éramos mais o centro do universo.
Galileu abriu as portas para toda uma nova era no conhecimento humano. Seus trabalhos compreendiam astronomia, cinemática e dinâmica. Ele foi um dos gigantes ao qual Newton se referiu. No Renascimento, quando apenas começamos realmente a compreender o quão insignificantes éramos, nós nos libertamos e iniciamos a construção de um conhecimento cada vez mais grandioso. Um conhecimento sobre nós mesmos e sobre o mundo ao nosso redor.
Não podemos conhecer todos os grãos de areia de uma praia. E acredito que estamos longe de conhecer uma porção significativa do universo. E tantos são os mistérios para serem resolvidos aqui na Terra. E tantos são os problemas criados por nós mesmos. Por vezes, pergunto-me, por que não deixamos que o oceano apague o que não é mais importante e seguimos em frente? Deixemos aquelas palavras para trás, escritas em uma praia, deixemos as ideias que não conseguem mais explicar abandonadas em uma folha qualquer, deixemos os hábitos que já não fazem bem no passado. Seria fácil se não nos apegássemos. Mas somos seres vivos e como tais, somos únicos. Resultados de infinitos processos que nos moldaram ao longo de bilhões de anos. Viemos de coacervados, evoluímos a formas mais simples de vida, talvez vírus, até virarmos seres mais complexos.
A inteligência, por enquanto, figura como o último estágio dessa evolução lenta. E em uma forma desesperada de se impor como um processo revolucionário e superior, a inteligência resolveu que o universo teria que ser criado por ela. Mesmo que não haja uma única evidência que é preciso inteligência para criar um sistema organizado no caos, e todas as evidências apontam que esta é o final de um processo evolutivo, ainda assim acreditamos que ela é necessária para criar tudo o que vemos e experimentamos.
A realidade pode ser mais poética que as fantasias mais fascinantes de nossa espécie. Basta percebermos, observarmos, investigarmos. Não somos especiais. Estamos no meio de uma tempestade cósmica e nosso único abrigo chama-se Terra. É a nossa única casa e não existem provas que haverá um céu ou um inferno onde nos escondermos. Na realidade, o paraíso é bem aqui. Olhe bem a sua volta. Pense em toda a complexidade da vida. Mas não na complexidade que inventamos, e sim na que vem de milhares de anos de atualizações constantes. Sistemas que se adaptam automaticamente às mudanças que ocorrem. Todos os seres vivos estão em constante mudança, ao contrário do que o Design Inteligente prega, – uma forma desesperada e insana que nossa espécie criou para salvar a ideia de que existe uma inteligência suprema por trás de tudo.
Onde estou? Estou aqui, sentado na Lua. Sinto essa solidão e olho novamente para nossa esfera azul. Penso em todas as injustiças que fazemos contra nossa própria casa. Será que permitiremos que o paraíso adquira a aridez da Lua? Insistimos em nos preocupar com essa inteligência superior que virá nos salvar de todos nossos problemas e esquecemos de limpar nosso próprio lar. É como esperar que nossa mãe arrumasse nosso quarto, quando na realidade, sempre moramos sozinhos.
Alheia a todos nossos devaneios de importância suprema, a Terra continua sua jornada ao redor de nosso Sol, que governa um sistema perdido no braço ocidental da Via-Láctea, que se move em uma trajetória que nem nós conhecemos ainda (muito possivelmente em rota de colisão com Andrômeda), dentro de algum outro sistema. Esses conjuntos de sistemas formam nosso universo. Que aos poucos se expande sem dar conta de nossa existência. Sem nos revelar todos seus mistérios. “Se quiserem saber mais sobre mim, investiguem”, seria sua resposta se questionado. Eppur si muove, – no entanto, se move. E só existe uma característica mais avançada que a inteligência no processo evolutivo: a curiosidade.
Agora olho para o céu, deitado na praia. As nuvens de tempestade se dissiparam. Um fenômeno meteorológico de verão. A noite já estendeu seus braços. Nas estrelas, talvez bilhões apenas em meu campo de visão, como os grãos de areia da praia em que me encontro, mais uma vez o universo avisa o quão grandioso ele é. Não preciso fechar os olhos para imaginar meu corpo flutuando pelo espaço. Adeus, Via-Láctea.